quinta-feira, junho 11, 2009

Voo 447 e o Gesto da Morte


Dentre as tantas notícias sobre o desastre do voo 447 da Air France, li:
"Uma italiana que perdeu o vôo 447 da Air France, que desapareceu no oceano Atlântico no dia 1º de junho, morreu em um acidente de carro na Áustria. Johanna Ganthaler, uma pensionista da província Bolzano Bozen, passou férias no Brasil e, junto com seu marido, não conseguir embarcar no avião após chegar atrasada no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro. As informações são do jornal britânico The Times.
Ganthaler e seu marido, Kurt, embarcaram de volta à Europa no dia seguinte, segundo informações da Ansa citadas pela publicação."
Chegando na Alemanha, o casal decidiu alugar um carro para viajar até sua residência na Áustria, para evitar o risco de mais viagens aéreas. O carro em que os dois estavam entrou na pista contrária de uma rodovia em Kufstein, na Áustria, e bateu de frente em um caminhão. Ganthaler morreu no local e Kurt ficou seriamente ferido no acidente, estando entre a vida e a morte.

O fato me fez lembrar um mini conto de Jean Cocteau, reproduzido por Jorge Luis Borges em um de seus livros de contos:

EL GESTO DE LA MUERTE
Un joven jardinero persa dice a su príncipe:
—¡Sálvame! Encontré a la Muerte esta mañana. Me hizo un gesto de amenaza. Esta noche, por milagro, quisiera estar en Ispahán.
El bondadoso príncipe le presta sus caballos. Por la tarde, el príncipe encuentra a la Muerte y le pregunta:
—Esta mañana ¿por qué hiciste a nuestro jardinero un gesto de amenaza?
—No fue un gesto de amenaza -le responde- sino un gesto de sorpresa. Pues lo veía lejos de Ispahán esta mañana y debo tomarlo esta noche en Ispahán.

Investiguei um pouco mais o assunto e descobri que se trata, na verdade, de um apólogo muito antigo. A primeira versão data dos inícios século VI e está incluida no "Tratado Sukka 53ª do Talmud da Babilonia" .
A versão original é a seguinte:

CITA EN LUZ
El Rey Salomón tenía dos escribas kusitas: Elicoreph y Achiyah, hijos de Shisha. Un día Salomón observó que el Ángel de la Muerte estaba triste.
Salomón le preguntó: “¿Por qué estás triste?” Y él le respondió: “Porque se me ha pedido que tome a los dos kusitas que te sirven”.
Salomón ordenó a los demonios que condujesen a los dos escribas sobre los campos a la legendaria ciudad de Luz donde nadie perece, pero murieron antes de llegar a las puertas de la ciudad.
Al día siguiente Salomón observó que el Ángel de la Muerte estaba alegre, y le preguntó: “¿Por qué estás alegre?” Y él respondió: “Porque has enviado a tus dos escribas al lugar exacto donde debía tomarlos.

Desde essa primeira versão conhecida, o apólogo se multiplica em muitíssimas outras, com variações de personagens e localizações geográficas.
A italiana Ganthaler tornou-se sua mais recente protagonista...

Para quem se interessar, recomendo vivamente um artigo de Miguel Díez sobre o apólogo, com reprodução de várias das versões conhecidas.

marcos palacios

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